Se não sabe o que provoca, não faça

Nosso relacionamento já estava desgastado, eu sei disso, mas eu a amo, não sei viver sem ela, ela não poderia ter feito isso comigo, vem dando indícios de que me trai a tempos, e mesmo assim eu ainda me mantive ao lado dela, com um fio de esperança de estar errado, de estar enxergando falsos indícios, mas ela terminou comigo, assim como se o nosso relacionamento não fosse nada, como se nossa história de 4 anos não tivesse tido nenhuma importância !
Já sei o que devo fazer, vou procurá-la, levar um presente e pedir mais uma chance, devo ter feito algo de errado, talvez consiga mudar o pensamento dela, é isso!
Domingo de manhã, acordei ansioso, esperançoso e aflito, será que este seria mesmo o melhor caminho, será que mesmo ela tendo me traído e tendo agido da pior maneira possível comigo, eu ainda deveria literalmente “correr atrás”? Bom é isso que meu coração pede e infelizmente ele tem mais poder agora do que a razão.
Assim, tomei banho, comprei uma cesta de flores com um ursinho de pelúcia e fui ao encontro dela, esperançoso e aflito ao mesmo tempo, o dia estava lindo e os raios do sol me energizavam. Cheguei, pernas tremendo, emoção e nervosismo, chamei, a tia dela (cuja casa era na frente) me atendeu, me olhou num misto de dó e preocupação, aquele era um sinal de que o pior estaria por vir, mas a esperança tomou meu coração e ignorei os sinais, fui a casa dela no fundo, a mãe dela me recebeu da mesma maneira, tal qual a tia eu ignorei os sinais e subi ao quarto dela.
Bati na porta com o coração na boca, aos pulos, ela estava lá e solicitou minha entrada, abri a porta e ela me olhou tal qual um iceberg, gelada, se mostrando totalmente insatisfeita de me ver ali, incrédula que eu tivesse a procurado depois do que ela fez, aquela foi a primeira punhalada em meu coração e a partir daquele momento percebi o peso da realidade.
A amiga que eu ingenuamente imaginava ser a culpada pelo desvirtuamento dela, sentada na cama ao lado dela, outra amiga na poltrona ao lado, entrei, entreguei-lhe o presente com luz no fim do túnel, ela jogou o presente na cama, fez uma cara de desprezo por mim, um misto de superioridade com “cara de bunda” e virou as costas como se eu não existisse e continuou conversando com a amiga, como se nem ao menos tivesse sido interrompida, como se ainda estivessem as três ali, sozinhas, envolvidas pelo encantamento dos assuntos que discutiam antes da minha entrada, e seguiu-se um profundo silencio.
Fui tomado por um intenso e arrebatador sentimento de tristeza, me senti a pior das criaturas, desprezível, inferior à qualquer ser que pudesse imaginar, envergonhado, triste, angustiado, gélido, com os olhos cheios d’água, a voz embargada, uma intensa vontade de sumir dali, me esconder do mundo, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer, sem ar, sem chão.
Me dirigi à janela, como quem vai ver a paisagem, um misto de necessidade de respirar, com vergonha por estar ali, desprezado e apático, e só então aquele silencio arrebatador foi quebrado, a amiga da poltrona me olhou com um misto de pena e vergonha e comentou que o urso era bonitinho, numa tentativa frustrada de quebrar o gelo.
Assim que recuperei forças para poder me mover, sai rapidamente dali, e pude ouvir uns risos de fundo, sim risos, para piorar ainda mais o meu estado que agora já era de lágrimas e desespero.
O resto vocês podem imaginar por si só.
Esta é uma dramatização de uma situação verídica ocorrida com uma pessoa que muito sofreu com esse desprezo, mas que depois aprendeu e cresceu com isso e que compartilho com vocês, com o intuito de mostrar àqueles que nunca sofreram com o desprezo e nem nunca passaram por situação semelhante, tal qual àqueles que já desprezaram ou pensam em fazê-lo, o quanto é prejudicial à pessoa que sofre com esse que no meu ver é o pior sentimento humano.
Se você não sabe o que provoca um sentimento, não faça com que nenhuma pessoa passe por aquele sentimento, você não conhece as conseqüências e certamente não terá preparo para lidar com elas. Se já passou por isso, do lado da vítima, sabe o quanto dói e sabe que não deve fazer isso nem com seu pior inimigo, se já passou por isso do lado do agressor, espero que tenha tido a noção das conseqüências e do quão ruim é este sentimento, para que nunca mais torne a repetir este erro.
Respeito pelo outro é respeitar os seus, pois somos responsáveis pelas conseqüências de tudo que multiplicamos, de todos os caminhos que seguimos e a vida nunca fica sem “acerto de contas”.
Reflitam.

Carlos Eduardo P. Gomes

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