Eu, Eu mesmo e o Mundo



Já tratei deste assunto aqui em outrora, mas sinto que necessito escrever mais a respeito, pois a superficialidade atualmente atingiu níveis jamais vistos, os valores se perderam, a máscara se tornou a aparência real e ser correto se tornou errado.

O senso comum consiste em uma maneira de agir, de se comportar, de falar e de ser que a maioria da sociedade faz de maneira idêntica e é tido como um padrão, como um roteiro a ser seguido, como uma espécie de manual onde tendo suas instruções seguidas vai funcionar, mas ai é que esta um ponto muitíssimo importante e que tenho visto que esta um pouco deturpado nos dias de hoje, o fato de o senso comum servir como um manual, não lhe garante a obrigatoriedade de ser seguido, não o torna uma lei, não o torna o único caminho possível, pois a premissa principal do ser humano é o livre arbítrio.

Devemos sempre estar atentos e adequados ao meio ao qual estamos inseridos, mas um DNA é único e temos a nossa originalidade, o senso comum não dita regras, apresenta apenas exemplos onde julgados por nós como adequados a nós e ao nosso momento, seguimos. Em cima dessa “afirmação”, jamais poderemos seguir o senso comum não estando de acordo com ele, onde fica o livre arbítrio neste caso ?

Conheço pessoas que deixam de fazer alguma coisa que desejam ou fazem algo que não desejam, por estarem preocupadas com o que as pessoas irão falar ou pensar a respeito delas, sendo uma privação leve ou até mesmo mais pesada, mais séria, somente por seguirem o senso comum, mas nem sempre estão dispostas a pagar o preço dessa “omissão” e muitas vezes nem tem a noção do preço que existe neste tipo de omissão.

Eu não sou o responsável por julgar ninguém, mas asseguro que seguir o senso comum sem estar de acordo com ele é errado e traz sérias consequências, todo tipo de omissão ou privação nos consome, nos inunda lentamente e transborda sem que tenhamos tempo de perceber, o que é pior é que quando vivemos pensando primeiro no olhar externo, deixando nossa opinião em segundo plano, acabamos por acostumar com essa postura e ela se torna normal, perdemos a nossa originalidade, os pés perdem contato com o chão e a única certeza que temos é que um dia seremos cobrados pela vida, pelas escolhas que fizemos, pois elas são nossa responsabilidade.

Você que se preocupa mais com a opinião de uma outra pessoa do que com a sua opinião, responda a si mesmo, quem é que vai sofrer com o resultado de suas escolhas quando esse resultado for ruim? Porque se preocupar com o que “Fulano” ou “Sicrano” pensa a seu respeito se você sabe que esta agindo de acordo com suas crenças e valores ? Ah mas eu não tenho certeza de que estou agindo de maneira correta !!! Preocupando-se com a opinião alheia em primeiro lugar, jamais irá descobrir se está ou não certo, pois todas as respostas estão dentro de nós, todas as nossas respostas são encontradas quando olhamos para dentro, mas o caminho é obscuro e precisamos de tempo, de reflexão de autoconhecimento, fatores que jamais alcançaremos se primeiramente valorizamos a opinião de uma outra pessoa, é uma perda de tempo lastimável.

Um exercício muito simples e valioso para fazermos é ao deitarmos para dormir, analisarmos o dia que acabamos de viver e identificar um erro e um acerto, apenas um, simples assim, quando menos percebermos, esta pratica se torna habito e vamos aos poucos nos tornando mais reflexivos, mais sensatos e analisaremos com maior propriedade o que nos é apresentado pelo senso comum antes de nossas tomadas de decisões, este é um exercício que fazemos internamente, somente nós teremos o conhecimento, não existe certo ou errado, não existe padrão, esta alheio ao senso comum e a qualidade do exercício somente nós mesmos poderemos mensurar, essa é a maior grandeza dele.

Li uma frase muito inteligente que dizia: “O mesmo homem jamais pode atravessar o mesmo rio duas vezes, pois quando ele voltar ele não será mais o mesmo e o rio também não será mais o mesmo.”, uma frase muito sábia, atual e verídica. Em cima disso, como podemos acreditar que o senso comum nos dita o que é melhor para nós se a vida é intensamente mutável e dinâmica, se nós somos adaptáveis, instáveis e imprevisíveis, se a única certeza que temos na vida – além da morte – é que ela muda insanamente a todo instante? Não, eu não tenho a resposta para estes questionamentos, porque como já disse, a resposta de cada ser esta localizada no interior de cada um deles, eu tenho a minha resposta e ela se aplica exclusivamente a mim, claro que encontrarei inúmeras pessoas com respostas semelhantes e até mesmo idênticas, onde neste caso, definimos como Senso Comum.

Espere ai, mas isto é totalmente contraditório, cada um deve seguir os seus valores e encontrar as suas respostas, mas existem inúmeras pessoas com respostas semelhantes e até mesmo idênticas que podemos denominar como senso comum, então eu devo seguir o senso comum ? Não existe contradição no que foi escrito, pelo fato de que a importância que foi dada ao senso comum difere do padrão atual de comportamento social, primeiro eu tomo uma decisão baseado nos meus conceitos e nas minhas convicções, com o apoio de minhas experiências, com o apoio dos exemplos alheios, para que a resposta às minhas decisões sejam enquadradas no senso comum, o senso comum deve ser usado como uma estatística que apoia a tomada de decisão, como um jogador em um cassino que analisa qual é o número mais sorteado, juntamente com uma série de outros fatores que o levam a tomar a decisão de qual número ele irá apostar, apoio é a palavra correta que define a função do senso comum, não imposição.

No poema “Invictus”, que foi um poema que o ex presidente da África do Sul, Nelson Mandela ganhou e tirou forças para se manter firme durante todos os quase 30 anos em que ele ficou preso por defender suas convicções, tem uma passagem muito interessante e que eu gosto muito, que diz: “Eu sou o dono e senhor do meu destino, Eu sou o capitão de minha alma”, este trecho do poema é magnifico, se torna ainda mais neste contexto, de um homem que mudou o destino de seu país, quebrou paradigmas e obteve sucesso no seu grandioso objetivo de mudar o senso comum e não se curvar a ele, será que a segregação racial da África do Sul teria acabado nos dias de hoje se “Madiba” – nome africano de Nelson Mandela – tivesse se curvado ao senso comum que na época pregava que o negro era inferior e somente os brancos tinha direitos ?

Como todo post gosto de terminar com algo para refletirmos e assim sendo eu pergunto: A menos de 60 anos o mundo vivenciou uma guerra onde os alemães desejavam exterminar uma “raça” inteira de acordo com suas convicções, nesta época esse era o senso comum na Alemanha, de que eles eram uma raça superior e que raças julgadas por eles inferiores deveriam ser exterminadas, uma pessoa de bem, que nasceu e cresceu sob a existência deste senso comum, tinha isto como seu valor, como convicção, estaria certa ou errada de seguir o senso comum da época e tomar a decisão de matar algum ser humano da raça julgada como inferior ?

CaeGomes

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